Estratégias e práticas de acesso ao mercado das famílias agricultoras do Agreste da Paraíba

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No Agreste da Paraíba, as diversas ações de Desenvolvimento Local baseadas na experimentação agroecológica tem aumentado significativamente o número de famílias praticantes da Agroecologia. O aumento do volume e a diversidade dos produtos resultantes vêm, paulatinamente, demandando novas ações: voltadas a experimentar e propor novos padrões de relação da agricultura familiar com os mercados. Baseado neste cenário, o Pólo Sindical de Borborema, fórum regional constituído por cerca de 16 sindicatos de trabalhadores rurais e diversas associações de agricultores, tem sido um dos principais articuladores de instituições e fomentadores do debate e da implantação de novos caminhos para a comercialização por parte da agricultura familiar, descritas a seguir. A chamada “venda-por-produção”, consiste na venda da grande diversidade de produtos de época que os agricultores familiares possuem. Com esta venda, eles “fazem dinheiro”, que possibilita suas compras nas feiras. A “venda-por-produção” se dá de diversas formas: pode ser realizada diretamente na propriedade do agricultor, pode ser feita para os vizinhos ou para intermediários, ou nas feiras, restaurantes e mercados locais. Nas feiras, por exemplo, é onde os agricultores, além de venderem seus produtos, buscam informações de preço para efetuar a venda em atacado que muitas vezes é feita na propriedade. Assim como na produção, a diversificação das estratégias de venda é importante, especialmente no caso de produtos perecíveis. João Caiana, agricultor do sítio Caiana, vende sua produção de laranjas no atacado para atravessadores, mas mantem uma parte para a venda na Feira de Remígio. Nela, assegura o agricultor, a venda é mais vantajosa, pois vende-se pelo preço final, mas vender toda a produção, afirma, não é possível. Além disso, formas de comercialização dos agricultores precisam se ajustar às condições ambientais. Exemplo disso se dá em ambientes com diferentes condições climáticas e regimes de chuvas, que condicionam a produção. Em regiões mais úmidas, como o brejo, as famílias podem organizar a produção e a venda de forma escalonada, podendo colher e vender de forma mais regular durante o ano. Ao contrário, na região do agreste, as famílias precisam garantir um boa produção que, além de ser utilizada para a alimentação, deve ser armazenada e vendida progressivamente durante o ano, para “fazer dinheiro” e garantir a compra de outros gêneros alimentícios, e produtos processados e industrializados. Apesar de ser vista, muitas vezes, de forma negativa, a intermediação se apresenta como necessária para os agricultores poderem escoar suas produções, podendo eles mesmos realizar este papel. Apesar de não ser muito comum, e depender de diversos aspectos (sociais, ambientais e das características dos produtos), alguns agricultores compram de outros agricultores para revender, de forma a completar suas bancas na feira: para os produtores isso é bom, viabiliza a venda do produto, “faz dinheiro” e libera seu tempo para a venda direta, que é mais rentável. As feiras locais, como a feira de Remígio (PB), são um dos ambientes de comercialização. Cerca de 60% dos feirantes são agricultores familiares que nela complementaram a renda, ou dela dependem para sustentar a produção agrícola. Nelas, os agricultores vendem e compram diversos produtos, desde frutas locais e condimentos, até instrumentos de trabalho, roupas, móveis, animais para criação e materiais escolares. Na feira, organizada por setores, os produtos são expostos no chão ou nos carrinhos-de-mão. A feira de Remígio sintetiza a diversidade das estratégias de comercialização presentes na região: nela, agricultores que vendem-por-produção vão comprar alimentos que não produzem; outros vendem o que produzem e outros vendem o que produzem e complementam suas bancas com o que compram dos vizinhos. Outros vendem no varejo o que compram no atacado. A diversificação da produção tem sido o elemento central dessas estratégias de reprodução socioeconômica mas que demanda espaços diversificados de comercialização. Em outras palavras, a sustentabilidade da inserção dos sistemas familiares nos mercados locais se fundamenta na oferta e na venda da diversidade produtiva. Enfocados desse ponto de vista, os mercados locais e, no caso, as feiras tradicionais podem vir a constituir potentes instrumentos de suporte a processos massivos de transição agroecológica no semi-árido. Mais do que um simples local de comércio, as feiras se conformam como espaços de sociabilidade, onde elementos da agricultura e da cultura local se manifestam e se fazem presentes e se integram com outros circuitos mercantis e repensar as feiras numa dimensão de sustentabilidade é, simultaneamente, um caminho fecundo e um desafio colocado à capacidade propositiva e de gestão política das organizações da agricultura familiar do Agreste paraibano.