Convivência com as pragas do algodoeiro no Curimataú paraibano

A Cultura do Algodão é historicamente uma cultura importante para o nordeste brasileiro, sendo responsável por grande parte da renda gerada na região, especialmente no semiárido, chegando a ocupar cerca de 50% de sua mão de obra e utilizar uma área de 3,1 milhões de hectares. Cultivado tradicionalmente em policultivos, o algodão arbóreo era plantado junto com uma diversidade de espécies: era consorciado com as leguminosas feijão-de-corda (Vigna unguiculata) e feijão-de-arranque (Phaseolus vulgaris) e, na roça, era intercalado o milho, o jerimum, o cará, a macaxeira, entre outras espécies alimentares. O sistema de plantio e o próprio algodão arbóreo integravam uma estratégia multifuncional, característica da agricultura familiar: as leguminosas promoviam o aporte de nitrogênio ao sistema, as ramas (folhas verdes) do algodão eram utilizadas como alimento para os animais; das sementes era extraído o azeite empregado nos candeeiros; e a torta do algodão, alimento de qualidade, era fornecido às vacas de leite. Além disso, o sistema prestava um importante serviço ambiental na medida em que as fileiras de algodão arbóreo, que chegavam a atingir cinco a sete metros de altura, funcionavam como uma cortina quebra-ventos, promovendo a economia da água do sistema. Porém, após a década de 1980, devido a mudanças políticas e econômicas, a decadência da cultura no país impactou fortemente a região, tanto em termos sociais quanto ambientais. Por um lado, o mercado ficou ruim para boa parte dos agricultores, mas mesmo assim muitos continuaram plantando ou mantendo suas culturas, visto que elas proviam renda monetária e também autossuficiência em vários aspectos. Por outro lado, as profundas mudanças de natureza técnico-agronômicas incorporadas pela lógica da revolução verde adotada pela agricultura brasileira levaram a uma ruptura nos sistemas tradicionais de cultivo do algodão no semiárido brasileiro: as espécies herbáceas, menos adaptadas ao clima semiárido, acabavam tendo seu cultivo associado a um pacote tecnológico, que aumentava os custos de produção e demandava o plantio em monocultivos, aumentando as populações de pragas do algodão, em especial a do bicudo (Anthonomus grandis). Em busca de alternativas ao sistema monocultural de plantio do algodão e de alternativas de manejo do bicudo, técnicos da Embrapa e das ONGs Arribaçã e AS-PTA identificaram, em 2004 e 2005, as iniciativas e soluções desenvolvidas pelos agricultores da região do Curimataú paraibano. Através da Metodologia do Diagnóstico Rápido Participativo, foram identificadas as estratégias implementadas por estes agricultores, buscando-se entender os mecanismos ecológicos que permitiam a convivência com os insetos-praga. Uma das estratégias adotadas pelos agricultores é o aumento do espaçamento do plantio. Utilizando o espaçamento de 1,10mx0,40m, ao invés do indicado pela Embrapa (1,00mx0,20m), as condições ecológicas da lavoura são alteradas, propiciando uma maior mortalidade natural do bicudo. Além disso, o aumento do espaçamento entre as linhas do plantio permite o consórcio com culturas alimentares (feijões e coentro), a colheita manual e facilita os tratos culturais (capina, catação de botões florais, amontoa e aplicação de defensivos naturais). Outra estratégia adotada pelos agricultores é o atraso do plantio. Apesar da recomendação oficial para que o plantio aconteça no início das chuvas (abril), estes agricultores iniciam o plantio apenas entre a segunda quinzena de maio e a primeira quinzena de junho. Com isso, o desenvolvimento do algodão (floração e frutificação) ocorre após os meses de junho e julho, que devido à menor temperatura do ano, é a época de maior incidência do bicudo. Mais integrada com a lógica de funcionamento da unidade produtiva familiar, esta estratégia, desenvolvida pelos agricultores, permite o melhor aproveitamento da mão de obra disponível no tempo, visto que, com ela, a colheita passa as ser feita no fim das chuvas, quando a disponibilidade de mão de obra é maior. Aliada ao maior espaçamento e à mudança da época de plantio, os agricultores, a rotação de culturas, a utilização como forragem dos restos culturais do algodão, a consorciação com coentro, feijão, sorgo e girassol e a catação de botões florais complementam o grupo de estratégias de convivência com o bicudo empregadas nos roçados de algodão das famílias agricultoras. Com solos em acentuado grau de degradação, outro desafio encontrado pelas famílias do Curimataú para o cultivo do algodão é a incidência de formigas cortadeiras. A solução veio das trocas de experiências, viagens de intercâmbios com outros agricultores da região e de outros estados: entre as práticas experimentadas e disseminadas destacam-se a utilização de folhas nim (Azadirachta indica) sobre os formigueiros e nos caminhos das formigas; o emprego de folhas de maniçoba (Manihot glaziowii Mull.) como isca para despistar as formigas das culturas plantadas; a utilização da água do agave (Agave sisalana Perrine) resultante do processo de beneficiamento da planta; e a utilização da manipueira fresca (no máximo dois dias após o beneficiamento da mandioca). A experiência do cultivo de algodão sem veneno começou a ser articulada a partir de um grupo de agricultores do Assentamento Queimadas, no município de Remígio (PB), e de uma família do município de Solânea. O interesse se deu inicialmente pela preocupação com a saúde das famílias e com a necessidade de produzir com baixos custos. Com o tempo e a evolução das experiências, as famílias envolvidas começaram a valorizar também os aspectos relacionados à sustentabilidade ambiental e financeira do conjunto de seus lotes. Além das organizações que deram início à experiência, essa atividade, denominada Projeto Escola Participativa do Algodão, conta atualmente com a participação de sindicatos de trabalhadores rurais, dos escritórios da Emater dos municípios de Remígio e de Casserengue, assim como de associações comunitárias. Estão diretamente envolvidas na experiência 50 famílias de agricultores de assentamentos e comunidades dos municípios de Remígio, Casserengue, Solânea e Juarez Távora. Em um seminário sobre algodão agroecológico do Nordeste, realizado no segundo semestre de 2006, em Lagoa Seca (PB), foi criada uma rede destinada a favorecer intercâmbios dos ensinamentos técnicos e de acesso a mercados que vêm sendo construídos pelos diferentes grupos envolvidos na produção agroecológica do algodão. Assim com para o caso das formigas, as estratégias preventivas para a convivência com o bicudo empregadas pelos agricultores no Curimataú são hoje referendadas em diversas publicações científicas. Resultado do aprendizado coletivo e da troca de conhecimentos entre agricultores experimentadores, o principal aprendizado foi o de que o objetivo do manejo não é o de eliminar por completo as formigas ou o bicudo, mas saber conviver com eles. Entre outros aspectos relevantes, estas experiências demonstram que não é necessário o uso de técnicas de alto risco ambiental e elevado custo, tais como a transgenia, para que os agricultores possam conviver com os insetos-praga, e oferecem importantes pistas a pesquisadores, técnicos e agricultores para que novas pesquisas e experimentações sejam realizadas.

Experiência
Convivência com as pragas do algodoeiro no Curimataú paraibano
Chamada
o conhecimento do agricultor familiar apontando os caminhos para a construção de sistemas de produção sustentáveis
Ano de publicação
2010
Última atualização
28/05/2018
Autoras/es
Relator/a
Áreas Temáticas
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