Redes Locais Tecendo Saberes Agroecológicos : a experiência da APACC de extensão rural na região Tocantina (Pará)

Problemas Apresentados A microrregião do Baixo Tocantins, uma das regiões de colonizações mais antigas do estado do Pará, tem sua economia baseada no agro-extrativismo e na agricultura familiar, cujos principais produtos são o açaí, o pescado, a farinha de mandioca e a pimenta do reino. Por ser uma partícula da Amazônia, essa região vivenciou a crise dos ciclos econômicos de exploração extrativista da borracha, do cacau e mais recentemente da pimenta do reino, assim como a crise ambiental verificada após a instalação da Usina Hidrelétrica de Tucuruí, que alterou o ecossistema da microrregião, diminuindo significativamente o pescado. Toda essa crise gerou reações por parte da população local que de forma organizada buscou alternativas para melhorar as condições sociais, ambientais, econômicas e técnicas. Crédito Rural, Assistência Técnica, energia elétrica, estradas e condições de saúde foram bandeiras de reivindicação na década de 80. Dentre essas solicitações, uma das principais conquistas ocorreu com o crédito rural a partir de 1995. A conquista do crédito e elaboração dos projetos pela assistência técnica estatal introduziram pacotes tecnológicos implantados por muitas famílias: projetos de monoculturas como a Pimenta do Reino, Coco, Muruci, Graviola, Acerola, Cupuaçu, associados a utilização de adubos químicos e defensivos agrícolas sem orientação técnica agravou a crise ambiental na região. A substituição da mata aumentou ainda mais o desequilíbrio ecológico, bastante agravado com constantes derrubadas para exploração de madeira e para plantio da lavoura branca no sistema de derruba e queima. A falta de condições da assistência técnica estatal em prestar um serviço de qualidade aos agricultores e agroextrativistas da região, a pouca adaptação das tecnologias a realidade dos mesmos e a ausência de uma metodologia eficaz de disseminação de informações e de apoio técnico causaram transtornos, muitos não conseguiram implantar seus projetos, ocasionando uma grande massa de agricultores endividados nos Bancos. O agravamento da crise sócio-econômica e ambiental coloca a população frente a novos desafios. A partir do final da década de 90 inicia-se um debate entre as organizações sociais do município de Cametá sobre a necessidade de projetos voltados ao desenvolvimento sustentável. Dentre várias iniciativas fomentadas por outras organizações, o Sindicato de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais começa uma articulação para a construção de um projeto de desenvolvimento rural fundado nesta perspectiva. Em 2000, a APACC estrutura seu escritório em Cametá e inicia um Programa de Assistência Técnica e Extensão Rural baseado nas seguintes estratégias: Formação Teórica e prática; experimentação e produção; monitoramento e avaliação; intercâmbios; pesquisa; valorização dos conhecimentos locais; e multiplicação de conhecimento acumulados. O objetivo desse programa é discutir as práticas para o desenvolvimento dos sistemas de produção a partir da valorização dos saberes dos agricultores e agroextrativistas, através da experimentação e produção, planejamento, multiplicação e uso sustentável dos recursos naturais da região. Solução Adotada Implantação de um Programa de Formação agroextrativista em 2 fases sucessivas: 1. Inicial em grupos nas comunidades rurais; 2. Uma Rede de Agricultores Multiplicadores das inovações e discussões já realizadas. Os passos para o programa de formação ocorreram por diagnósticos (identificação de demandas, problemas, inovações existentes nas práticas produtivas), resgate de conhecimentos locais. A partir das demandas levantadas pelos agricultores e agroextrativistas, iniciou-se a organização de grupos de famílias que juntamente com os educadores técnicos passaram a discutir e buscar as soluções adaptáveis a realidade local. Ao fim de cada momento de formação, instala-se um experimento para que acompanhar e discutir sobre aquela produção, sua adaptação ao ecossistema local. Isso permite que a comunidade e os educadores identifiquem sujeitos locais (agricultores e agroextativistas) que desenvolvem habilidades técnicas e políticas para atuarem em suas comunidades como multiplicadores dos conhecimentos desenvolvidos. Esses são escolhidos pela comunidade, a partir de uma série de critérios. Os multiplicadores se organizam em rede municipal, com uma comissão coordenadora, que tem a assessoria da APACC. Os objetivos da rede: a)Formação continuada e multiplicação de conhecimentos e práticas produtivas, adaptáveis aos sistemas de produção; b)Organização em rede para buscar apoio no desenvolvimento de ações na comunidade e sustentabilidade; participação nas políticas públicas e controle social dos serviços voltados para a produção familiar do campo; c)Comunicação/Mobilização nas comunidades e em nível municipal para o envolvimento de outros sujeitos nesse processo; divulgar as experiências como forma de buscar reconhecimento e visibilidade dentro e fora do município. No processo de formação com os multiplicadores, além da discussão inerente aos sistemas de produção, debatem-se os elementos que norteiam a atuação metodológica, diferenciando-se da assistência técnica convencional, que se pautava na transmissão de conhecimentos acabados e fiscalização de operações de créditos. Nos projetos de assessoria técnica se observa é a dificuldade da adoção de práticas inovadoras a partir da capacitação. A proposta de construção de parcelas experimentais no projeto de Formação de Multiplicadores como parte integrante da capacitação, pesquisa e reflexão por parte dos agricultores fez com estes participassem efetivamente da construção do conhecimento agroecológico, despertando e amadurecendo seu senso de pesquisa e inovação. Pimenta sombreada em tutor vivo e sistemas agroflorestais A experiência iniciou-se em 2001, devido a ataques de fusariose1 nos pimentais, não aproveitamento de matéria orgânica, sistemas de monocultivo e do uso de adubos químicos. Isso levou o agricultor Osmar a realizar uma experiência com o plantio de um pequeno pimental em consórcio com um sistema agro-florestal, introduzindo várias espécies de plantas regionais e aproveitando outras áreas do lote para o plantio. Após alguns anos, passou a pesquisar as espécies plantadas, destacando-se o pequeno plantio de pimenta-do-reino em consórcio com outras espécies. Fez a comparação com os pimentais implantados via créditos do FNO2, percebendo grandes diferenças. Crescendo junto com bacurizeiro (na sombra de 60%) e com outras frutíferas: cupuaçu, café, laranja, abacate, açaí e algumas essências florestais, como: acapu, paricá e mogno, as pimenteiras se desenvolviam em um perfeito equilíbrio natural: não apresentavam doenças, pragas e não era preciso realizar capinas constantes, pois a sombra facilitava o manejo. A partir dessas observações, o agricultor ampliou sua descoberta, participou do Programa de Formação, aprimorou seus conhecimentos com técnicos multiplicadores, trocou conhecimentos e disseminou sua experiência no município. Como multiplicador, capacitou 14 jovens, com acompanhamento técnico; Objetivos Contribuir para a preservação do meio ambiente e a melhoria das condições de vida das famílias do campo na microrregião do Baixo Tocantins. - Diversificar a produção, através da formação em práticas produtivas sustentáveis; - Fomentar o estabelecimento de uma rede local de agricultores multiplicadores para a disseminação de práticas produtivas sustentáveis; - Reforçar o saber fazer dos sujeitos locais, aprimorando suas capacidades de gestão da propriedade, definição de estratégias a longo prazo e de adaptação às evoluções do agroecossistema. Metas - 1.000 agricultores e agroextrativistas participam da formação em 18 meses, 60% diversificam suas produções; - 80 multiplicadores envolvidos na rede local do município de Cametá; 100% diversificam suas produções; - Os multiplicadores difundem práticas agroecológicas. Resultados Alcançados - Diversificação das produções, através da gestão e planejamento das propriedades. Antes da formação os agricultores e agroextrativistas desenvolviam 2 produções em cada ecossistema, na Terra Firme - produção de farinha e pimenta do reino em sistema de monocultivo e nas Ilhas - pesca artesanal e açaí. Após a formação, o processo de diversificação ampliou-se para 5 a 7 produções (cultivo de mandioca para produção de farinha de qualidade, pimenta-do-reino sombreada, piscicultura, criação de abelhas, manejo de açaizais, pequenas criações, sistemas agro-florestais com consórcios de frutíferas e essências florestais, hortaliças, hortas medicinais) - Início da transição agroecológica nas áreas de terra firme - 70% dos agricultores e agroextrativistas que participaram dos processos formativos fazem o aproveitamento de matéria orgânica para adubação - Recuperação do solo com uso de leguminosas - Implantação de consórcios e sistemas agro-florestais com sombreamento de pimentais - Produção e plantio de 100 mil mudas de frutíferas e essências florestais - Aumento de 70% de áreas de açaizais nativos manejadas; Aumento em 275% da produtividade do açaí por hectare - Aumento em 200% da renda dos agroextrativistas na produção do açaí por hectare - A criação de peixes é feita em 200 tanques e os esses são alimentados, em grande parte, com ração alternativa (produzida na propriedade) - Fabricação de rações alternativas com aproveitamento de produtos naturais da propriedade; - 58 apicultores organizam 300 colméias de abelhas (apicultura) e 105 caixinhas de abelhas nativas; - 11 apicultores (multiplicadores) estão comercializando mel com a Companhia Nacional de Abastecimento – CONAB, agregando renda em torno de R$ 1.432,95 por pessoa por entrega de 233 kilos de mel. - 80 multiplicadores de Cametá realizaram em 2006 4.110 visitas de apoio técnico aos seus vizinhos, 768 mutirões de trabalho e avaliação de práticas produtivas, atingindo em torno de 3.000 famílias Os resultados da experiência provocam nas organizações e nos sujeitos locais maior conscientização ambiental no sentido de produzir e preservar. fonte:http://www.tecnologiasocial.org.br/bts/tecnologiaSocialAction.do?metodo=detalhesTecnologia&codigoTecnologiaSocial=2207

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