Agroecologia na Formação Universitária: Ensino de Agroecologia na UFF

Aqui retrato a experiência de vários anos da disciplina intitulada “Agroecologia” oferecida como optativa vinculada à Geografia, e com a proposta interdisciplinar, também oferecida para outros cursos: Farmácia, Nutrição, Enfermagem, Biologia, Medicina, História, Ciências Sociais, Física, Cinema, Engenharia Agrícola, Serviço Social. Objetiva trabalhar o enfoque agroecológico e fomentar o debate em conjunto - o papel da universidade na formação de técnicos e acadêmicos despertos para um trabalho interdisciplinar, com consciência crítica, atentos para a complexidade na qual atravessamos em nossa sociedade. O eixo do trabalho na disciplina de graduação é reconhecer os problemas do modelo da Revolução Verde, imposto e inadequado, e do processo de modernização em suas várias dimensões - agrário, agrícola, político, social, cultural, tecnológico, ético, e humano. De forma integrada, abordar as questões do ensino, da pesquisa e da extensão referenciando-se em contextos socioambientais específicos. Desconstruir um modelo que rompeu com a produção de alimentos, com a saúde, com a vida considerada sagrada, com pessoas de conhecimento, com práticas culturais, com enorme sociobiodiversidade, para produzir mercadorias e tornar as pessoas dependentes, uma peça de um modelo industrial, fragmentada, enfraquecida, desnutrida, triste, sem esperança. Leva a mexer com o status quo, a refletir alternativas, a germinar diversidade e alternativas na monocultura das mentes. A disciplina almeja exercitar o olhar para ver as múltiplas experiências existentes nos territórios e poder ver um outro mapa do nosso estado e do Brasil. Trazer o enfoque agroecológico a partir da interação entre vários estudantes de diferentes cursos, a partir de conceitos e métodos que permitem interagir o conhecimento acadêmico com conhecimento popular. Ressaltar a importância do diálogo de saberes e promover a possibilidade de integração entre as ações do ensino, da pesquisa e da extensão, completamente fragmentadas no dia a dia acadêmico. Qual o papel da universidade na formação de profissionais despertos para um trabalho interdisciplinar, críticos e sensíveis à construção de outro projeto de sociedade? Utilizando-se de visitas e trabalhos de campo a comunidades de agricultores e a experiências em outras universidades; filmes de experiências práticas de agricultores; textos que vão embasando a crítica ao modelo convencional, e palestrantes convidados, gestar elementos para a construção da mudança referenciada na perspectiva agroecológica. Nesse contexto, pedagogicamente oportunizar aos alunos conhecimentos e trabalhos não usuais no instrumental acadêmico, levando a refletir sobre as trocas com agricultores, movimentos sociais, e diferentes realidades ecossistêmicas e territoriais numa perspectiva holística. Abrir para uma percepção mais sensível. Os métodos que tem com base trocas, participação, sinergia, levam ao despertar e retoma a animação e a vontade de mudar, de construir outra formação e outra prática. Toca na vida, no sagrado, no seu pertencimento a natureza, em algo que é necessário, é o sonho de todo ser humano, passando a te oferecer também um sentido de existência. Assim se revê conceitos, condutas, escolhas. A possibilidade de repensar métodos, escalas, o construir juntos e reconhecer o conhecimento da prática, do povo, do agricultor, traz um desejo de ser esse outro profissional. A possibilidade de ser veiculo de recuperação da natureza, de aprender esse potencial, de ter o prazer, o tempo lento, é transformador. Traz uma outra qualidade para o aprendizado. Aparece o sujeito. A riqueza de depoimentos e de experiências vem permitindo contrastar os problemas inerentes ao projeto dominante da revolução verde, pedagogicamente proporcionando elementos p/ se evidenciar a Agroecologia como outro projeto.

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