Ecovila Karaguatá: SAF's como modo de vida, segurança alimentar e autonomia

A Ecovila Karaguatá situa-se no município de Santa Cruz do Sul, RS. Inicialmente, era mantida por três famílias, porém atualmente é gestionada pela família Gusson, que mantém na agrofloresta e práticas de reciprocidade na localidade, umas de suas principais bases para sustento de sua segurança alimentar e autonomia frente às lógicas hegemônicas de consumo e capitalização das coisas e relações. Em termos de sistema agroflorestal local, encravada em um vale, a propriedade é originariamente herdeira de uma cobertura florestal que sofreu diversas intervenções históricas no solo e paisagem – roças gigantescas não-ecológicas; criação de gado; cultivos de fumo, etc. - tendo atualmente na agrofloresta uma principal diretriz para uma efetiva restauração ecológica, além de que esta possa fundar a total independência ou autonomia alimentar em relação ao sistema capitalista envolvente. Toda a propriedade, em relação a práticas de manejo, está sob a lógica fundamental de captar e compreender os movimentos (dinâmicas de solo, vegetação, ventos, luz solar, etc.) da natureza e que possam estar sendo desenhadas no sistema agroflorestal local. Acompanhar os ciclos de reciclagem (práticas de compostagem em diferentes pontos da propriedade) ou aproveitar de forma racional os fluxos e desenhos que percorrem as águas de chuva, por exemplo, são práticas presentes em toda a propriedade. Favorecem ou produzem em seus Saf's diversas raízes (gengibre, cúrcuma, carás, yacons, etc.), frutíferas (goiabas, bananas, açaí juçara, araticuns, abacates, etc.), além de chuchu, maracujás, abóboras, ananás, etc. Como a propriedade possui relativa abundância em Euterpe edulis (açaí juçara), dedicam em seu manejo desta espécie ações de plantios de mudas, podas florestais para favorecimento da luz solar, além de realizarem extrativismo para produção de polpa dos frutos. A Ecovila Karaguatá está inscrita numa rede internacional para receber pessoas interessadas em seu modo de vida. Recebe centenas de pessoas por ano que passam a vivenciar suas práticas em agrofloresta, bioconstruções e permacultura, retornando estas pessoas à Ecovila saldos naquilo que a Karaguatá denomina de “caixinha solidária”, uma caixa para contribuições financeiras espontâneas (corresponsabilização financeira). Mantém com a comunidade do entorno intensas práticas de reciprocidade, onde diferentes trocas materiais e inter-relações são estabelecidas e continuamente alimentadas com o objetivo de firmar autossuficiência alimentar, autonomia e continuidade de seus projetos. A família deixa bem claro o objetivo de estabelecer uma autonomia e autossuficência alimentar tal que consigam tudo que necessitem materialmente dentro da agrofloresta, sua casa.